Usos atuais e históricos das terras brasileiras

Agricultura, pecuária, mineração, florestas… As terras brasileiras já foram (e ainda são) utilizadas por diversas atividades humanas desde sua (re)descoberta pelos portugueses. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), instituição federal que tem como missão “retratar o Brasil com informações necessárias ao conhecimento de sua realidade e ao exercício da cidadania”, entende como atividades de uso da terra aquelas “geralmente associadas às atividades conduzidas pelo homem relacionadas a uma extensão de terra ou a um ecossistema”.

 Usos históricos

Para falar dos usos atuais das terras que hoje podemos chamar de nossas, entendo como valiosa uma rápida retrospectiva – tendo o auxílio dos historiadores – das principais atividades econômicas já desenvolvidas no Brasil historicamente relacionadas ao uso das terras.

  • Pau-brasil: madeira vermelha que deu nome ao Brasil. Utilizada como tingimento na Europa e, portanto, primeira atividade econômica no Brasil, explorada em grande quantidade no litoral.
  • Cana-de-açúcar: cultivada em grandes áreas e processada nos engenhos, principalmente na zona costeira (enfoque no Nordeste e em São Paulo).
  • Pecuária: a criação de gado trazido do exterior ocupou grande parte das áreas do agreste e sertão nordestinos, e se estendeu para o restante do território.
  • Mineração: minas de ouro, diamantes e outros metais preciosos, foram descobertas em Minas Gerais e deram início ao processo de ‘entradas’ nas terras brasileiras.
  • Café com leite: produção de café em grandes extensões do estado de São Paulo, e criação de gado leiteiro em Minas Gerais – que acabou por se estender para o restante do país.
  • Borracha: exploração de látex na Amazônia brasileira para produção da borracha, requerida mundialmente.

(Para fins de visualização e localização, existem ilustrações e mapas com as localizações conhecidas das atividades econômicas citadas, como as apresentadas no portal Atlas Histórico do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas).

 Usos atuais

Na medida em que os usos históricos foram ganhando o território, percebeu-se a necessidade de analisar como estavam se expandindo e de entender quais seriam seus limites. Hoje, aproveitando da praticidade e do avanço tecnológico dos satélites, existem diversos órgãos, instituições e empresas que analisam e monitoram as alterações de uso das terras brasileiras – como os projetos RADAM, Terraclass e MapBiomas, além de um grande conjunto de legislações que tem como objetivo tanto disciplinar as atividades quanto potencializar o uso das terras sem causar danos ambientais.

Há um consenso entre os cientistas e pesquisadores que o monitoramento do uso das terras em um território é de grande importância para o planejamento econômico, social e ambiental. Portanto, diveeeersos pesquisadores (brasileiros e estrangeiros) realizam estudos ainda mais pontuais nessa temática, a fim de analisar além do País, seus municípios, estados e regiões.

O Brasil da atualidade possui em sua delimitação cerca de 8.515.767,049 km² de terras. Nestas, o IBGE monitora, além dos desmatamentos e de biomas específicos, as transformações nos usos do território a cada dois anos através do programa Monitoramento da Cobertura e Uso da Terra do Brasil, que possui dados atualizados iniciando no ano de 2000. Nestes monitoramentos, o território é mapeado utilizando imagens de satélite e métodos estatísticos que possibilitam conhece-lo.

Em um projeto mais recente, o MapBiomas, uma iniciativa gerida por diversas instituições – universidades, órgãos públicos, empresas privadas de tecnologia e ONGs – realizou o mapeamento dos usos do solo no Brasil desde o ano de 1985 a 2017 (três décadas). Estes dados foram gerados com alta qualidade e seus métodos e validação se encontram disponíveis para a população através de relatórios. Segue um infográfico deste projeto, referente ao ano de 2017, bem como ao comparativo entre 1985 e 2017.

A partir dos dados, observamos na realidade recente do Brasil que as áreas de vegetação natural (florestas e campos) se sobressaem bastante às outras. Como ainda veremos, essas áreas estão presentes em propriedades públicas e privadas (urbanas e rurais), além de territórios protegidos como unidades de conservação de diversos tipos e terras indígenas. Temos, portanto, em nossas áreas de vegetação natural um patrimônio ambiental, um elemento histórico e uma garantia futura tanto de terras estáveis quanto de qualidade de vida.

Por outro lado, em menor quantidade que a vegetação original, a agropecuária – pastagem, área agrícola, silvicultura e seus mosaicos, incluindo a agricultura familiar – fica em segundo lugar da lista e desponta como atividade econômica com maior ocupação de terras, sendo também historicamente essencial para nossa economia, alimentação e qualidade de vida.

Comparativamente, observamos que apesar de mais da metade do território brasileiro ser coberta por vegetação nativa – o que pode nos levar a inferir que preservamos demais e não há mais necessidade de medidas de proteção ambiental, quando verificamos a evolução histórica dos usos das terras brasileiras desde o ano de 1985 (como mostra o infográfico do MapBiomas), entendemos que houve aumento da atividade agropecuária e consequente redução nas áreas de vegetação nativa, possivelmente devido aos novos investimentos econômicos e realidades sociais, produtivas e políticas.

Temos, portanto, que os dois principais usos de nossas terras, primordiais, prioritários e aparentemente controversos e opostos, precisam ser postos em harmonia. Qual seria o caminho?

Comentários

Sem dúvidas o Brasil cresceu muito desde sua colonização em 1500. Do Pau-brasil chegamos à soja e ao milho. Das terras naturais exploradas em pequenas áreas pelos povos indígenas, chegamos ao descobrimento de novas terras e à utilização da natureza em larga escala. Das pequenas comunidades chegamos às metrópoles e megalópoles brasileiras.

Percebam que a realidade atual do Brasil possui relação com as atividades dos tempos de descobrimento, além da importância e valor do potencial das terras (tanto naturais quanto plantadas) ainda estarem presentes e ainda serem fonte de discussões e desentendimentos.

Dito isto, concluo com alguns questionamentos – que são pessoais, mas, tenho certeza que também coletivos, e me proponho a abordar em próximos artigos:

  1. Na prática, o planejamento estratégico do Brasil leva em consideração ambos os eventos históricos e atuais do país (vegetação pré-existente e cultura agropecuária)?
  2. Existiria um limite-ótimo ou limite-ideal para a convivência harmoniosa entre os usos nativos e os posteriores?

Tem interesse em conhecer mais as nossas terras? Aqui na coluna teremos mais!

Fontes de informações:

IBGE (2013) – Manual Técnico de Uso da Terra:  https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv81615.pdf

IBGE – Apresentação:  https://www.ibge.gov.br/institucional/o-ibge.html

IBGE – Monitoramento da Cobertura e Uso da Terra do Brasil (2014-2016) –  https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101625.pdf

Só História: https://www.sohistoria.com.br/ef2/histbrasil/

Atlas Histórico do Brasil – FGV: https://atlas.fgv.br/capitulos/preliminares-antes-de-1500

Mapbiomas: http://mapbiomas.org/pages/infographics

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Uma engenheira de meio ambiente que se aventura em projetos, processos e pesquisas em planejamento ambiental, legislação e geoprocessamento. Mestranda em ciências ambientais (UFG), pós-graduanda em direito ambiental (UCAM), engª ambiental e sanitarista (UFG). Goiânia, GO.