Traffic Calming

Traffic Calming – A (nem tão) nova estratégia para tráfego urbano

Você já deve ter reparado que vários países como Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Bélgica, Holanda e Reino Unido possuem trechos urbanos quase totalmente dominados por pedestres e bicicletas. Além da preferência da população pelo uso de transportes limpos, é importante destacar a estrutura oferecida pelas cidades para o incentivo à população na opção por esse tipo de transporte.

A maioria das cidades europeias é milenar, com prédios datados de séculos passados que contam histórias de uma época na qual o transporte era feito por cavalos e carruagens. Portanto, conta com vias estreitas, de paralelepípedos e com calçadas estreitas. Dessa forma, é natural que a idade não comporte o tráfego constante de veículos como carros, motos ou caminhões e, mesmo que comportassem, o trânsito de veículos poderia causar danos a essas estruturas. Em 1970, surge uma técnica de acomodação do tráfego de forma a respeitar o meio ambiente, o chamado Traffic Calming.

Zonas de traffic calming possibilitam um trânsito seguro e sustentável. Fonte: Wandsworth Living Streets, 2019.

Como o nome sugere, a intenção é tornar o tráfego mais calmo, reduzindo a velocidade de circulação em regiões densamente ocupadas por comércios ou habitações, induzindo os motoristas a trafegar de forma mais apropriada a segurança das pessoas e melhorando a qualidade do meio ambiente com o incentivo do fluxo de pedestres, bicicletas e transportes coletivos, podendo ser feita tanto em áreas comerciais como em residenciais.

As regiões de traffic calming são delimitadas por vias arteriais, que são os pontos mais próximos de tráfego de veículos, inibindo o atravessamento na área. Dentro dessa região, as vias são locais e chamadas de área ambiental, onde a velocidade máxima permitida é igual ou inferior a 30km/h, com vias estendidas para tráfego de pessoas e políticas rígidas de estacionamento para carga e descarga de mercadorias e de veículos. Ademais, podem ser instaladas almofadas, rampas, portais e entradas, com o intuito de delimitar e controlar a área.

Delimitação por vias arteriais em zonas de traffic calming em Old Town Jakarta. Fonte: Master plan of DKI Jakarta, 2007.

No Brasil, as cidades de Curitiba – PR, Rio de Janeiro – RJ, Recife – PE, São Paulo – SP e Belo Horizonte – MG implementaram a redução a velocidade em trechos estratégicos, outras cidades no país utilizam a estratégia em áreas críticas, como em regiões de escolas e centros comerciais, porém, a técnica é aplicada pontualmente, em caráter experimental, e a falta de conscientização da população causa insegurança para pedestres e ciclistas.  Em Belo Horizonte, o traffic calming foi implantando em 1979 no centro da cidade , na época, todas as vias apresentavam o mesmo padrão de uso, o que gerava tráfego lento, degradação ambiental e grande numero de acidentes, para isso, foram criadas 25 áreas ambientais, circundadas por vias arteriais programadas e sinalizadas para aumentar a fluidez, que inibiam o ingresso de veículos nas áreas fechadas, revitalizando bairros e praças. A população usuária de automóveis reagiu mal a restrição, pois já estavam habituados a falta de controle na utilização do sistema viário e a serem priorizados no trânsito, o que fez o projeto não ser totalmente implantado e ser descaracterizado anos mais tarde.

Em São Paulo, foi criado em 1989 um projeto de traffic calming por meio de bolsões que visava diminuir a degradação urbana e ambiental de áreas residenciais. O projeto envolvia diretamente os moradores do local que possuíam participação ativa nas decisões das técnicas que seriam adotadas. Apesar dos pontos positivos serem evidentes na adoção do bolsão residencial, uma pequena parcela de moradores se opôs a implantação alegando que a ação feria o direito de ir e vir do cidadão.

A técnica, quando bem aplicada, causa efeitos imediatos no meio ambiente e aumenta a segurança do trânsito, estimulando o comércio e valorizando as regiões residenciais, aumentando a qualidade de vida e o bem-estar geral da população que vive nas áreas densamente urbanizadas, porém as experiências brasileiras mostraram que é fundamental estimular a conscientização da população que vive ou trabalha na área afetada com relação aos benefícios da mudança. Toda mudança gera algum incômodo inicial, o que não deveria inviabilizar a adoção de práticas benéficas a longo prazo para a população e para o meio ambiente.

Bibliografia:

BHTRANS. Manual de Medidas Moderadoras de Tráfego. Belo Horizonte: [s. n.], 1999. Disponível em: https://prefeitura.pbh.gov.br/sites/default/files/imagens/authenticated%2C%20editor_a_bhtrans/manual_traffic_calming.pdf. Acesso em: 23 jul. 2019.


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Postado em Desenvolvimento Sustentável e Mobilidade Urbana.

Ana Carolina de Moraes Luccarelli

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Mestre em Engenharia de Transportes pelo IME e bacharel em Engenharia Ambiental pela Puc-Campinas, desenvolveu suas qualificações nas áreas de Estudo de Impacto Ambiental, Estudo de Tráfego e Relatórios de Sustentabilidade tendo como atribuição comunicação com stakeholders, acompanhamento de projetos para licenciamento ambiental e projetos de responsabilidade sócioambiental. Na carreira docente, foi educadora voluntária no Projeto Formare da IP, docente de graduação para disciplinas de Meio Ambiente no CNEC e de EaD em MBA em Gestão Ambiental na Kroton. Atua como Consultora Ambiental e de Transportes na A Consultoria Ambiental. Campinas - SP.