The Game of Sustainability II

The Game of Sustainability

Série de 5 capítulos eletrizantes sobre algumas construções sustentáveis, suas vantagens, desvantagens e dicas importantes para construir de forma mais econômica e mais amiga do meio ambiente.

Segundo Episódio: A esperança está no CLT.

“Espera aí… CLT? O que que a Consolidação das Leis do Trabalho, tem a ver com as construções sustentáveis?! Estou ‘assistindo’ a série errada?”

Calma! Apesar de ser uma legislação importantíssima, nosso foco aqui é falar de construções sustentáveis. E desta vez vou falar de um sistema construtivo chamado CLT, que não é nenhuma lei, mas que se refere a um “trabalho” muito interessante!

Nosso episódio de hoje começa na década de 1990, na Europa, quando as indústrias madeireiras começam a se perguntar como agregar valor às sobras de placas de madeira serrada.

Após várias análises e testes, estudiosos do assunto chegaram no sistema construtivo CLT, que significa Cross Laminated Timber. Traduzindo para o português: Madeira Laminada Colada Cruzada.

O resultado foi uma tecnologia aparentemente simples: são lamelas coladas e dispostas cruzadas em 90 graus, coladas com adesivos estruturais que possuem altíssima resistência.

Para a ANSI (Norma Americana), a CLT é uma madeira “engenheirada” pré- fabricada, feita com pelo menos três camadas ortogonais de madeira serrada coladas com adesivos estruturais para formar um sólido retangular estrutural, com várias aplicações como telhados, pisos paredes, pilares, vigas, etc.

A CLT é muito parecida com as placas de compensado. A colagem dos painéis faz com que se minimize os efeitos de retração e se tenha uma maior estabilidade dimensional.

A tecnologia “caiu nas graças” de construtores de edifícios multifamiliares na Europa, Japão e no Canadá, por ser um material versátil para a construção civil.

Essa tecnologia possui tanta resistência que concorre de igual para a igual com o concreto armado, aço e tijolos.

As placas são formadas já com as aberturas de portas, janelas e dutos, cortados com altíssima precisão, ocasionando a vantagem de vir pronto da fábrica e a mão de obra não necessitar fazer nada mais, somente parafusar e encaixar paredes portas janelas.

Contudo, a desvantagem de ter que ter um planejamento muito rigoroso antes da obra, com projeto muito bem dimensionado e definido até o acabamento, é que qualquer modificação poderá custar uma parede toda perdida na obra.

Depois de prontos os painéis na fábrica, esses painéis são transportados para o canteiro de obra e montados com guindaste. Ali, haverá uma pequena equipe esperando para a montagem dos painéis, com conectores de metal parafusados em paredes e pisos. Camadas de isolamento poderão ser adicionadas, conforme a necessidade e situação, pois a madeira é um excelente isolante térmico e acústico. As suas superfícies podem ser deixadas à mostra dando um efeito moderno no interior da residência, e economizando, ao mesmo tempo, no acabamento.

A montagem da CLT no canteiro de obra é muito veloz, tornando esse sistema muito atrativo no quesito tempo, economia com mão de obra, além de perturbação mínima para com o entorno da obra, restando apenas o barulho da broca e da parafusadeira.

O toque final para este episódio, quase inédito no Brasil, se dá com a possibilidade de se construir edifícios com este sistema! Sim, esta tecnologia aguenta 30 andares e já estão estudando a possibilidade de se executar arranha-céus.

Essa nova tecnologia do CLT trouxe a capacidade de se produzir painéis colados de imensas dimensões e espessuras trazendo uma nova dimensão na visão de projeto para a arquitetura, já que ele é pensado como planos e volumes e não linhas.

A tecnologia CLT permite uma obra limpa, seca, com um tempo reduzido de montagem e pouca mão de obra envolvida.

A produção de CLT na fábrica não possui interferência com o clima, ou seja, faça chuva ou sol, sua produção não para.

Uma madeira normal, sem ser trabalhada, possui uma retração muito grande, ela contrai e expande conforme o clima do lugar. Mas com a CLT, devido ao sentido perpendicular em duas direções da colagem, essa retração é muito reduzida, dando uma estabilidade ímpar à placa.

A CLT tem também um grande desempenho contra o fogo, como o concreto ou o aço. A massa térmica dessa placa permite que um lado dela esteja a 100°C e do outro lado da madeira, em um ambiente contíguo, esteja na temperatura ambiente.

A combinação de força, resistência e a sua maleabilidade para contrair e expandir sem romper, além de seu peso leve, faz com que seu desempenho seja muito interessante em áreas onde ocorrem terremotos.

No Brasil a madeira utilizada para a produção do CLT é o Pinus. Mas estudos estão sendo feitos para se utilizar outras espécies. A desvantagem dessa madeira é que, se quiser deixá-la aparente, ela muda de cor em função da sua exposição a claridade e ao sol. Neste caso, deve-se tomar cuidado na colocação de tapetes e quadros nas paredes, onde a iluminação natural incide diretamente.

Por aqui ainda não existem normas específicas de cálculo estrutural para a CLT. Recomenda-se utilizar as normas do Canadá ou da Europa.

No Brasil as empresas Carpinteria Estrutura de Madeira e a Crosslam se uniram para a fabricação da CLT e montaram uma residência em apenas 4 dias. A fundação foi realizada tipo radier de concreto, com sistema de fixação alufoot.

O desperdício de material é quase nulo, com impacto ambiental e ao entorno imediato muito baixo. Convenhamos, é um final muito feliz!


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Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela PUCCAMP, e pós-graduada pela UnyLeya, como Especialista em Arquitetura, Construção e Projetos Sustentáveis. Atua há 19 anos com projetos e construções sustentáveis, e consultorias para empresas e indústrias.