Preservar a floresta pode ser lucrativo

É sabido que o grande vilão das emissões dos gases do efeito estufa (GEE) são os combustíveis fósseis. Amplamente utilizados em países desenvolvidos e industrializados, são a principal fonte de energia e movimentam os setores da indústria e dos transportes. Não à toa, o gigante das indústrias e maior emissor de GEE do mundo, os Estados Unidos, se mantem resistente em adotar medidas de redução desses gases.

De acordo com a plataforma online Climate watch [1], o Brasil, em 2016 foi o sexto maior emissor global de gases do efeito estufa. Apesar disso, a matriz energética brasileira é composta basicamente de hidrelétricas que é uma fonte limpa de energia.


Você já parou para pensar de onde vem essas emissões? Ao contrário de outros países, as emissões do Brasil são, em maioria, oriundas do desmatamento. O Brasil e a Indonésia são os únicos países do mundo em que mais da metade das emissões vem da destruição de suas florestas [2].

É preciso entender que a maior parte do desmatamento que ocorre no Brasil é de origem ilegal. Assim temos que pensar na precariedade em que vivem as pessoas que contribuem ao tráfico de madeira ilegal e, como, a falta de políticas públicas contribuem para esse fato. Um outro ponto é que essa madeira ilegal alimenta quase que inteiramente o mercado interno, que ainda tolera esse tipo de prática. Logo, quando é realizado um manejo adequado da floresta este serve ao exterior. É fato que os produtos de menor qualidade sempre ficam no Brasil, vide mercadorias como suco de laranja, café, entre outros.

E como pensar em soluções para essa questão? A importância da floresta do ponto de vista ambiental é inquestionável. Mas e do ponto de vista econômico? Você já ouviu falar a respeito dos serviços ambientais?

A Avaliação Ecossistêmica do Milênio da ONU [3], publicada em 2005, criou uma classificação para os serviços ambientais:

* Serviços de Provisão: os produtos obtidos dos ecossistemas. Exemplos: água doce, fibras, produtos químicos, madeira, sementes, frutos.

* Serviços de Regulação: benefícios obtidos a partir de processos naturais que regulam as condições ambientais. Exemplos: absorção de CO² pela fotossíntese das florestas; controle do clima, polinização de plantas, controle de doenças e pragas.

* Serviços Culturais: São os benefícios intangíveis obtidos, de natureza recreativa, educacional, religiosa ou estético-paisagística.

* Serviços de Suporte: Contribuem para a produção de outros serviços ecossistêmicos: Ciclagem de nutrientes, formação do solo, dispersão de sementes.

Aqui, o foco está nos serviços de provisão mas em outra oportunidade tratarei dos demais. Também irei usar como exemplo a Amazônia que aqui é o melhor estudo de caso. Pouco conhecidos e valorados são os produtos gerados por esse bioma ainda que se saiba da enorme quantidade de produtos ali gerados como: açaí, castanha-do-pará, cupuaçu, mel, borracha, óleos, pescados, madeira (quando manejada), entre muitos outros. Sem citar o enorme potencial medicinal das plantas ali existentes, local que contém uma das maiores biodiversidades do planeta.

Utilizar da pesquisa, ciência, dos saberes dos povos tradicionais e de parcerias com o setor privado é o único caminho para que os recursos ali gerados tragam renda a quem ali vive e ao país como um todo. Um exemplo que tem dado certo é a Rede de Sementes do Xingu [4], organizada pelo Instituto Socioambiental. Populações tradicionais coletam sementes que são vendidas a fazendeiros para que possam cumprir seus compromissos de reflorestamento. Inclusive já existe um selo para produtos desse tipo, o Origens Brasil [5] que tem dado certo e vem trazendo relações comerciais equilibradas valorizando as populações locais e seus territórios.

Dessa forma, mais que ações pontuais as nossas florestas precisam de políticas que estimulem uma economia pautada no conhecimento da natureza. Sabendo aproveitar o que ela tem a nos oferecer e sabendo valorizar as comunidades tradicionais que ali vivem e que tanto tem a nos ensinar.

Seguimos,

e até a próxima.

Referências:

[1] – https://www.climatewatchdata.org/

[2]- http://ricardoabramovay.com/preservar-amazonia-e-mais-lucrativo-que-desmatar-diz-economista/

[3]- http://www.millenniumassessment.org/en/index.html

[4]- https://www.sementesdoxingu.org.br/site/

[5]- https://www.origensbrasil.org.br/


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Graduada em Engenharia Florestal pela UFRRJ, mestranda em Ciências Ambientais e Florestais pela UFRRJ, pesquisadora junto ao laboratório de Sensoriamento Remoto Ambiental e Climatologia aplicada (LSRACA) com foco para as mudanças climáticas na região Amazônica brasileira.