O planejamento urbano e as mudanças climáticas

Um bom projeto urbano pode minimizar os efeitos das mudanças climáticas. E como isso pode ser feito?

Domingo dia 15 de Dezembro de 2019 terminou em Madrid a COP25, conferência do clima da Organização das Nações Unidas (ONU). Participaram quase 200 países que concordaram em  apresentar “compromissos mais ambiciosos” para reduzir as emissões de gases poluentes. Porém os detalhes de como será executado será feito apenas na próxima cúpula que será realizada em Glasgow, na Escócia, em novembro de 2020. Com isso é muito importante falarmos sobre como projetamos as nossas cidades.

Os grandes centros urbanos com altos índices de urbanização e consequentemente com grande  pavimentação de seu solo acumulam mais calor do que regiões mais afastadas em que possuem áreas mais permeáveis e verdes. Este fenômeno é conhecido como Ilhas de Calor. Ela ocorre quando uma cidade tem grande concentração de asfalto e concreto, como esses materiais concentram mais calor, a temperatura local aumenta e a umidade relativa do ar fica mais baixa. Normalmente a temperatura nesses locais ficam acima da média dos municípios da região. A Ilha de Calor vem sendo estudada a décadas e recentes estudos apontam que um dos principais fatores para o agravamento desse fenômeno nas cidades é a forma como construímos elas.

Devemos discutir soluções mais avançadas de como minimizar os efeitos das mudanças climáticas. Stone em “Cities do not cause heatwaves they amplify them” (2012) disse que não será suficiente desacelerar o rápido avanço do aquecimento nas cidades somente adotando estratégias de redução dos gases de efeito estufa. Deve ser feito estudos mais avançados e abranger mais áreas.  As políticas globais não devem se concentrar a tecnologia apenas em mitigar a redução de combustíveis fósseis, mas também prestar atenção ao potencial das cidade e projetar formas urbanas mais eficientes,  pensar na mobilidade e o uso da terra.

Rolan Pellenq, pesquisador do MIT e do Centro Nacional de Pesquisa Científica dos EUA, fez um estudo que revelou que cidades construídas a partir de uma malha urbana mais ortogonal, exemplo Nova York, são muito mais quentes do que cidades com uma malha mais orgânico, como Londres por exemplo. O estudo englobou um total de 50 cidades e os pesquisadores descobriram que quanto mais ortogonal a estrutura urbana de uma cidade for mais intenso resulta o fenômeno da ilha de calor. Então além de estudarmos questões dos combustíveis fosseis, gases do efeito estufa, materiais usados em pavimentação, também devemos tomar conta de como é o desenho de uma cidade.

São estudos que devem ser levados em consideração pelas autoridades globais nas tomadas de decisões sobre mudanças climáticas para serem mais assertivos. Devem colocar a crise climática como uma das primeiras coisas a se resolver. Cidades mais quentes consequentemente terão um alto consumo de energia. Os pesquisadores no mesmo estudo sobre a malha urbana descobriram que em muitas cidades os efeitos de ilhas de calor urbanas resultaram em um consumo excessivo de sistemas de ar condicionamento. No estado da Flórida, por exemplo, foi estimado  aproximadamente um total de US$ 400 milhões anuais. De acordo com Pellenq, coisas como esta podem ser evitadas se investirmos mais em projetos urbanos mais inteligentes.

O fato é que uma cidade mal planejada está inteiramente sujeita aos efeitos da ilha de calor urbana e com isso sofrerá com o aumento nas ondas de calor, doenças relacionadas às altas temperaturas e poluição além é claro, de um consumo maior de recursos naturais e energéticos. Segundo o Banco Mundial em 2045 iremos chegar a marca de 6 bilhões de pessoas vivendo em centros urbanos, hoje são 4 bilhões. Com isso para acomodarmos toda essa população nas cidades será preciso investir em projetos urbanos mais inteligentes e sustentáveis. Deverão ser considerado outras importantes questões como: habitação, transporte público e infraestrutura urbana.

Falta maior protagonismo das cidades nas soluções das mudanças climáticas. As cidades são a solução. Conhecer os riscos e seus impactos, portanto, é fundamental para propor medidas de adaptação que tornem as cidades mais resilientes. Nova Iorque, Boston, Londres e Melbourne estão revisando seus planos diretores, códigos de edificações e demais legislações pertinentes. Todos devemos estar unidos para que possamos ter soluções eficientes para podermos enfrentar de verdade essa crise climáticas que vivemos.


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Especialista em Arquitetura Sustentável pela PUCPR, graduada em Arquitetura e Urbanismo pela UTP, CEO do escritório de arquitetura Aria41 e consultora em projetos sustentáveis, integrante do CivicWise e professora na Escola de Sustentabilidade.