Meio ambiente, ficção e realidade: crônicas sobre o filme Elysium.

Mesmo os filmes norte-americanos, blockbusters por natureza, amados por uns e odiados por outros, podem passar uma mensagem sobre o futuro, ainda que de forma fantasiosa ou de realidade ampliada.

O filme Elysium, como tantos outros, retrata uma situação pós-apocalíptica no planeta Terra. Em que pese retratar uma Los Angeles em meados do séc. XXII  (2159, mais precisamente), subentende-se que a situação é global. A economia não se equilibra, empregos não existem, a criminalidade explode, o Estado não existe como ente assistente e sim como explorador ou repressor sem medidas.

Consequentemente , os recursos são escassos  e neles incluem-se, obviamente, os recursos naturais, o que sustenta toda a vida na Terra.

O caos é o único padrão, o que ocorreria em qualquer situação pós-apocalíptica. Assim, os poucos que ainda possuem riquezas passam a dominar ainda mais o cenário econômico e de sobrevivência, segregando os menos abastados ou miseráveis e mantendo-os à distância.

O tema central aponta para a ideia, ainda fantasiosa (mas não impossível e já em estudos), de uma estação espacial em órbita do planeta Terra, servindo de morada apenas para os que possuem riquezas, acumuladas ou ainda em fluxo de renovação ou ampliação através das poucas fábricas e corporações que ainda existem fisicamente no planeta, pois dependem de mão-de-obra humana para seu funcionamento. 

Além da própria existência de uma moradia “segura” fora do planeta destruído e sem futuro que ficou para trás para aqueles que podem buscar sua salvação, a tecnologia futurista retrata o uso e domínio absoluto sobre a robótica aplicada em serviçais, segurança e outros serviços. E a principal tecnologia almejada por todos e utilizada apenas na estação espacial Elysium, por quem pode financeiramente, trata-se de uma máquina (Med-bay) capaz de reparar lesões no corpo humano, como mostrado logo em seu início em uma cena tocante da busca desesperada de uma mãe (não abastada) para curar sua filha de uma doença grave.

Neste preâmbulo traçamos alguns paralelos e podemos indicar curiosidades. O nome do filme, Elysium, retrata os famosos Campos Elíseos, que na realidade têm sua origem na mitologia grega. Os Campos Elíseos representavam o nirvana, o paraíso. O lugar celeste ou espiritual (nada diferente das modernas religiões ou filosofias que nele acreditam) para onde os gregos pretendiam chegar após sua morte, rodeados de lindas paisagens bucólicas, tranquilas, repletas de paz. Porém, o uso específico dessa expressão no título Elysium não foi à toa. Pois, assim como na película, nem todos poderiam chegar até lá. Tal lugar espiritual só permitia a permanência de heróis, santos, sacerdotes, poetas e deuses. Sendo ainda que as pessoas que residiam nos Campos Elísios tinham a oportunidade de regressar ao mundo dos vivos.

Além do paralelo entre realidade e filosofia mitológica e ficcionista, no filme aqueles que podem alcançar os Campos Elíseos o alcançam, os que não podem, permanecem “sobrevivendo” em um planeta destruído e servindo de mão-de-obra para aqueles que possuem riquezas e que agora vivem em “outro mundo”. Obviamente, o filme traz à tona a ideia clássica e histórica da vivência isolada e luxuosa da realeza em seu castelo e a plebe ao seu redor produzindo as riquezas de propriedade da realeza. Sem críticas de cunho ideológico, sim, é retratado um mundo de diferenças econômicas que sempre existiu e ainda está longe de seu fim.

Outros filmes de ficção, baseados ou não em best-sellers ou livros clássicos de pensadores de respeito, já retrataram a ideia de um futuro sombrio com a divisão intransponível de classes sociais, com os grupos de excluídos, sempre em maioria claro, buscando novamente a conquista de direitos que se perderam com as catástrofes humanas ou naturais neles retratados. Como exemplo, podemos citar “Fuga de Nova Iorque”, filme de 1981 estrelado por Kurt Russel, tratando-se mais de um filme de aventura do que de ficção científica filosófica, porém, com nuances como cenário pós-apocalíptico, separação de classes sociais de forma repressiva, sociedade desestruturada, etc e etc. 

Em “Gattaca – a experiência genética”, filme de 1997, a realidade retratada inclui a escolha daqueles que podem ou não ascender socialmente. Sem a necessidade de se mudar de planeta, os que detém o poder são os que detém a tecnologia. E essa tecnologia é capaz de prever, geneticamente a partir do nascimento, qual a capacidade física e psicológica de um indivíduo, podendo traçar seu futuro definindo de imediato até mesma a profissão que ele pode exercer. 

Ideia parecida, na verdade originária, encontramos no clássico da literatura política-ficcionista “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, lançado em 1932 e trazido para a telona em 1980.

Em “Admirável Mundo Novo” as pessoas nascem já pré-condicionadas biologicamente a determinadas classes sociais, as castas, possuindo uma única e eterna função até sua morte. A paz é introduzida de forma artificial numa sociedade criada e desenvolvida por leis e regras sociais que inibem o livre-pensamento do indivíduo, garantindo assim o controle social. Se um indivíduo começa a pensar de forma a questionar o sistema entra em cena o uso de drogas legalizadas e controladas pelo Estado que garantem o controle mental do indivíduo. 

Esse clássico da ficção científica, com discussões político-filosóficas sobre o futuro da humanidade, vai além do tratado em “Elysium”, mostrando uma sociedade criada aos interesses do controle social, onde não existe o  conceito de família e de amor, sendo que cada indivíduo pertence a todos os outros, servindo apenas de instrumento de produção e serviços, mas podendo utilizar do sexo livre entre indivíduos sem a preocupação de procriação indesejada, já que o Estado mantém o monopólio sobre a geração de novos indivíduos através da criação em incubadoras conforme o interesse “coletivo” da sociedade. 

Vale a pena lembrar a homenagem do letrado Zé Ramalho com sua música “Admirável Gado Novo”, com referências claras de um povo predestinado a ser controlado, como o gado.

Em Elysium, como em todo blockbuster, existe um herói , na verdade um anti-herói, interpretado por Matt Damon. Anti-herói, pois a personagem é um órfão, crescido na miséria reinante, passando claramente por todos os tipos de dificuldades e se rendendo em determinado período de sua vida ao mundo do crime, futuro comum entre alguns jovens dessa sociedade.

Em suma, evitando-se aqui contar todo o enredo do filme, nosso anti-herói passará por mais percalços do que já havia passado, obtendo uma chance, perigosa ao extremo, de chegar à Elysium e buscar nas tão almejadas Med-Bays sua salvação, porém nada será fácil e o final, como um bom blockbuster nem sempre é o esperado.

 

Mas afinal de contas o que podemos extrair dessa obra de ficção como algo significante a ser analisado diante de nossa realidade?

A situação apocalíptica retratada é indesejável e vista como improvável, porém não impossível. A falta de recursos naturais é uma realidade. A degradação ambiental conhecida nos últimos dois séculos é maior do que de toda a história humana, por um fator bem simples, o uso da tecnologia que se torna obsoleta a cada dia e consequentemente o aumento de consumo de bens, já que a sociedade como um todo evolui economicamente e busca sempre melhores condições de vida com suas consequentes facilidades que a tecnologia e o dinheiro proporcionam.

O consumo elevado e a falta de políticas ou a falta de consciência da maioria da sociedade com o uso racional dos recursos que ainda existem, renováveis ou não, pode levar uma sociedade ao seu colapso. 

Não cabe aqui a referência a teorias místicas ou ambientalistas catastróficas puramente concebidas a partir de ideais sem fundamento científico. A ciência procura explicar determinados acontecimentos e prever assim possíveis eventos futuros, mas a incerteza científica ainda é uma constante em determinadas áreas, especialmente a ambiental. Porém, teorias como falta de recursos em um futuro, ainda que distante, nunca pode ser descartada. 

Malthus, criou a teoria matemática que defende a ideia de que com melhores condições de vida no planeta, haverá diminuição da taxa de mortalidade, elevação da idade média da sociedade, levando a um aumento populacional e que em contrapartida não ocorrerá o aumento proporcional na produção de alimentos e sua correta distribuição. Sua teoria, malthusiana como é conhecida, já se faz presente em nossa realidade.

Com um aumento populacional inchando o planeta e por outro lado a escassez de recursos, um colapso é infantilmente previsível. Guardadas as devidas proporções, leva o homem sim à disputas inimagináveis por sua garantia de sobrevivência, obviamente os mais favorecidos economicamente detém vantagem sobre os demais. O acesso às tecnologias modernas é sempre iniciado, e até mesmo mantido, pelas castas elevadas em qualquer sociedade, já que possuem custos elevados.

Elysium nos leva então a refletir sobre qual será o futuro da humanidade com todo o aparato e tecnologia que o homem possuirá em breve, ao mesmo tempo em que teremos, com toda a certeza, uma escassez de recursos.

A tecnologia nos levará para além de nossa imaginação. Mas quem terá acesso a essa tecnologia?


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Oficial da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Atuou na Polícia Ambiental.
Mestre em Direito Ambiental, Especialista e Mestre em Gestão de Segurança Pública, Bel. em Direito e Adm. de Empresas, Bacharelando em Filosofia.
Possui livros publicados na área ambiental.
Professor Universitário e da APMBB.
Site: www.direitoambiente.com.br