Fogo na Amazônia

Diante da atual crise em relação as queimadas na Amazônia, não poderia deixar de tratar desse assunto por aqui. Ainda mais, levando-se em consideração que essa é a minha linha de pesquisa desde a graduação. É importante dizer que a profissão do Engenheiro Florestal, tão pouco conhecida, poderia assumir um papel protagonista nessas discussões.

Focos de calor vs Queimadas

Tenho visto muitos artigos jornalísticos usando de forma equivocada esses termos, por isso acredito ser importante o esclarecimento. Os focos de calor (ou focos de incêndio), são definidos como pontos geográficos na superfície terrestre, captados por sensores espaciais que apresentam temperaturas superiores a 47◦C. Esses focos podem, ou não, estar ligados a um incêndio. Ou seja, o satélite identificará quaisquer superfícies acima dessa temperatura.

Já a queimada é uma prática muito comum na agricultura e dentro de comunidades tradicionais (populações indígenas, ribeirinhas, quilombolas e etc), principalmente, ligada a limpeza de terreno para o plantio, formação de pastos e abertura de novas áreas (desmatamento). Esse tipo de queimada é conduzido, normalmente, de forma controlada, porém muitas vezes pode-se perder o controle gerando grandes incêndios florestais.

Há um agravamento nos incêndios na Amazônia?

De fato, a região Amazônica concentra um maior número de focos de calor e de incêndios. Isso ocorre devido ao grande número de atividades na região que favorecem a ocorrência de incêndios. Além disso, é uma região em que ocorrem secas severas, proporcionando condições ideais (redução nas chuvas e aumento de temperaturas) de ocorrência e propagação de incêndios.

A grande preocupação é a, cada vez mais recorrente, ocorrência de climas extremos na região. Ou seja, longos períodos com pouca ou nenhuma chuva e, ao contrário, períodos com excesso de chuvas.

Como fruto da minha monografia, tenho um artigo publicado que trata exatamente de um exemplo desses. O objetivo foi o de avaliar a ocorrência de focos de calor durante a seca severa ocorrida em 2005 no estado do Amazonas. Foi possível concluir a relação direta entre as condições meteorológicas e o aumento no número de focos de calor.

Para podermos melhorar nosso entendimento sobre o tema, é necessário o aumento de estudos, principalmente levando-se em consideração uma série temporal de dados de focos de calor na área.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) há sim um aumento no número de focos e queimadas na região neste ano quando comparado ao ano passado. Além disso, é possível observar picos de focos de calor em anos muito secos (2010 e 2015, por exemplo).

O que temos observado, por parte do governo, é um gasto de energia com polêmicas numa tentativa de minimizar os dados. Enquanto que pouco tem sido feito na formulação de soluções a curto prazo e de politicas públicas que lidem com o problema a longo prazo. Claramente é um governo que não acredita em mudanças climáticas e está sempre desmerecendo o papel de órgãos de fiscalização ambiental e de Organizações não Governamentais (ONG’s).

O constante diálogo e alinhamento com a pauta do agronegócio também evidencia as prioridades do atual governo. Não à toa, não fossem as pressões sofridas, hoje, o Ministério do Meio Ambiente seria apenas uma pasta dentro do Ministério da Agricultura. Deixo claro aqui a importância da agricultura, porém esses dois ministérios deveriam andar em equilíbrio e não como setores opostos.

O fogo é sempre negativo?

Por fim, é importante lembrar que o fogo nem sempre é negativo. Na maioria das vezes, o fogo ocorre devido a ação do ser humano, porém as causas também podem ser naturais, por exemplo através de descargas elétricas.

No Cerrado, o fogo tem um importante papel. É responsável pela distinta vegetação encontrada nesse bioma. O aspecto retorcido das plantas é associado a grande ocorrência de fogo e suas cascas mais espessas é resultado da adaptação dessas plantas a esse ambiente. Além disso, o fogo faz parte da quebra de dormência de certas espécies desse bioma, ou seja, para que ocorra a germinação de algumas sementes é necessário um choque térmico que é possibilitado quando ocorre o fogo.

Apesar desse aspecto positivo no bioma Cerrado, o fogo traz muitos prejuízos ecológicos e sociais. Desde perda de biodiversidade (fauna e flora) até ao aumento de doenças respiratórias devido a exposição prolongada à fumaça e fuligem. Sem contar no considerável aumento nas emissões dos gases de efeito estufa.

Com certeza esse não é um assunto simples. Ainda hoje, cientistas em todo o mundo vêm se empenhando em descobrir as causas e as relações das condições climáticas e a dinâmica de fogo na região Amazônica e em todo o mundo. Essas pesquisas são de extrema importância para um efetivo planejamento de prevenção e controle de incêndios.

Nesse sentido, o Brasil ainda tem muito o que desenvolver visto que pouco há de informação e investimentos nessa área. Vivemos num momento de resistência por parte da Ciência no Brasil. Momento esse importantíssimo a reflexão da importância da Ciência no desenvolvimento das sociedades.

 

Seguimos,
Até a próxima.

 

Referências

Dados focos de calor do INPE: http://queimadas.dgi.inpe.br/queimadas/portal-static/estatisticas_estados/

RAY, D.; NEPSTAD, D.; MOUTINHO, P. Micrometeorological and canopy controls of fire susceptibility in a forested Amazon landscape. Ecological Applications, v. 15, n. 5, p. 1664-1678, 2005

Artigo da minha monografia: Barbosa, M. L. F., Delgado, R. C., Teodoro, P. E., Pereira, M. G., Correia, T. P., de Mendonça, B. A. F., & de Ávila Rodrigues, R. (2018). Occurrence of fire foci under different land uses in the State of Amazonas during the 2005 drought. Environment, Development and Sustainability, 1-14.


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Graduada em Engenharia Florestal pela UFRRJ, mestranda em Ciências Ambientais e Florestais pela UFRRJ, pesquisadora junto ao laboratório de Sensoriamento Remoto Ambiental e Climatologia aplicada (LSRACA) com foco para as mudanças climáticas na região Amazônica brasileira.