Desafios sociais do Brasil perante as mudanças climáticas

Você já parou para pensar como as mudanças climáticas podem impactar a sua vida? Você se considera vulnerável as mudanças climáticas? O que as mudanças climáticas tem a ver com justiça social?

A partir dessas três perguntas vamos tentar refletir a importância de promover a participação local no processo de adaptação as mudanças climáticas, do reconhecimento coletivo de nossas vulnerabilidades e a importância das políticas públicas neste contexto.

Os desastres

Os desastres climáticos matam e impactam milhões de pessoas ao redor do mundo, porém esse impacto é sofrido em maior ou menor nível a depender da classe social em que se está inserido. Normalmente, as pessoas mais pobres tendem a sofrer mais as consequências de desastres climáticos, e no Brasil isso significa o agravamento de situações recorrentes para muitas pessoas.

Dentre essas situações podemos citar a falta de infraestrutura e saneamento básico que acarreta em constantes alagamentos, deslizamentos de terra e proliferação de doenças. Também as secas extremas que resultam em perdas de produção de alimentos, aumentando a insegurança alimentar de inúmeras pessoas. Em regiões semiáridas, as secas extremas, em conjunto com a falta de políticas públicas, acarreta em migrações, má nutrição e fome.  Os incêndios também são agravados e podem causar desde a perda de alimentos até aumento nos casos de problemas respiratórios, principalmente em crianças e idosos.

Vulnerabilidade e Justiça Social

O risco de um desastre pode ser pensado a partir da relação entre a ameaça e a vulnerabilidade. Enquanto a ameaça está ligada a um fator externo como os terremotos e tempestades, a vulnerabilidade é um fator interno e representa o nível de susceptibilidade a uma ameaça. Entendendo estes conceitos podemos imaginar que a vulnerabilidade é passível de mudanças e é neste ponto que entra a justiça social.

Basicamente, a justiça social significa que todas as pessoas possuem direitos e deveres iguais no que se refere a vida social e isso garantiria direitos a saúde, trabalho, educação, justiça, moradia, entre outros. Apesar disso, existem hoje no Brasil mais de 60 milhões de pessoas pobres ou extremamente pobres.

Na figura 1, abaixo, é possível observar as regiões de maior vulnerabilidade social no Brasil. Podemos observar que a região Sul é a que possuí os melhores índices enquanto o Norte e Nordeste se encontram bastante vulneráveis.  O Brasil, como a maioria dos países em desenvolvimento, será bastante impactado pelas mudanças do clima, é esperado que eventos climáticos extremos sejam cada vez mais recorrentes. Por isso, o aspecto social associado a esses eventos extremos (por exemplo, secas e enchentes) é extremamente preocupante no atual século.

Um exemplo é a cheia histórica registrada nas últimas semanas nos rios do Acre que tem deixado milhares de desabrigados. Além disso, estas enchentes acarretaram em diversas perdas de produção de alimentos, aumentando a insegurança alimentar de dezenas de famílias. A verdade é que, de forma geral, o Brasil está muito pouco preparado para lidar com eventos climáticos extremos e seus impactos.

 

Figura 1. Fonte: Fiocruz, 2020. Classes A e B possuem baixa vulnerabilidade social e as classes C, D e E possuem alta vulnerabilidade social.

Desafios

Um estudo de caso publicado em 2019, através de uma parceria entre Brasil e Alemanha, mostrou que mais de 80% das pessoas entrevistadas (em uma comunidade de Florianópolis, Santa Catarina) não tinha conhecimento de qualquer mudança climática significativa ocorrendo e não acredita que estas mudanças afetam diretamente suas vidas.

Este exemplo reflete a realidade de que as pessoas potencialmente mais impactadas são as que menos reconhecem esta vulnerabilidade e isto está relacionado a um contexto histórico que naturaliza os riscos e ameaças recorrentes que são enfrentados pelas comunidades mais pobres. Está ligado também a falta de informação e de políticas públicas que dialoguem com a sociedade e os integre aos processos de tomada de decisão.

Os desafios são muitos, é necessário que os programas de proteção social dialoguem com as medidas de adaptação as mudanças climáticas. Essa conexão pode trazer resultados mais efetivos e de longo-prazo tanto para a questão climática quanto para a social. Ainda, a população deve fazer parte da solução, reconhecer o risco é só o primeiro passo. Uma população bem informada e preparada para lidar com situações de desastres pode aumentar significativamente a capacidade de gestão destes riscos.

E você sabe qual é o conceito de desastre? Você acha que os desastres tem sempre origem natural? Fiquem ligados pois será tema da próxima coluna.

 

Seguimos e até a próxima!

 

Referências

1- https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/11/12/extrema-pobreza-se-manteve-estavel-em-2019-enquanto-a-pobreza-teve-ligeira-queda-no-brasil-aponta-ibge.ghtml

2- https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S2212095518301494

3- https://www.emerald.com/insight/content/doi/10.1108/BFJ-02-2016-0082/full/html

4- https://portal.fiocruz.br/sites/portal.fiocruz.br/files/documentos/2relatorio-procc-emap-covid-19-20200323-vulnerabilidade.pdf

5- https://www.brasildefato.com.br/2021/02/27/cheia-no-acre-nem-os-antigos-viram-uma-enchente-como-essa-diz-indigena


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Graduada em Engenharia Florestal pela UFRRJ, mestre em Ciências Ambientais e Florestais pela UFRRJ e doutoranda em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.