Cenário da questão ambiental

Com as queimadas existentes na região Norte do Brasil, recorrentes nesta época do ano, mais em maior destaque midiático em 2019, a questão ambiental ganhou significativa relevância nos últimos dias.

We met the enemy and he is us”, frase emblemática de Walt Kelly usada no cartoon, criado para celebra o primeiro Dia da Terra em 1970, continua cada vez mais atual e revela o resumo de forma eloquente da relação que o homem tem, principalmente nos últimos 60 anos, como o ambiente. O homem está, cada vez mais, “inimigo” de tudo que habita a Terra, mesmo se considerando a recente onda de conscientização de conservação do planeta que começa a circular nos últimos tempos.

Apesar dessas recentes boas intenções que a humanidade afirma possuir em relação as questões de preservação ambiental, essas terminam colidido com a de outros recursos/bens e, por isso, governos, empresas e indivíduos têm de enfrentar seus dilemas e tensões que nem sempre são fáceis de resolver.

O que se presencia, atualmente, é que as questões ambientais passam pelos seguintes problemas: escassez de alguns importantes recursos; degradação dos ecossistemas; diminuição da capacidade para absorver todos os resíduos que são produzidos com a ação do homem e capacidade de resiliência do planeta está atingindo o seu limite máximo.

Assim, alguns relevantes estudos são feitos e delineiam o cenário ambiental contemporâneo. Um desses é o novo Relatório de Avaliação Global sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), sendo esse o mais abrangente já concluído. Seu resumo foi aprovado na 7ª sessão do Plenário do IPBES, em reunião ocorrida entre 29 de abril a 4 de maio deste ano em Paris. Foi compilado por 145 autores especialistas de 50 países nos últimos 3 anos, com contribuições de outros 310 autores contribuintes. Dessa forma, o documento avalia as mudanças nas últimas 5 décadas, fornecendo uma visão abrangente da relação entre as trajetórias imputadas pelo desenvolvimento econômico e seus impactos na natureza. Também oferece vários cenários possíveis para as próximas décadas, entretanto, com resultados nada positivos e animadores, porém são alertas para possíveis mudanças de comportamento dos indivíduos, organizações e governos.

Este documento adverte que a natureza está em declínio num ritmo sem precedentes na história humana, com taxas de extinção de espécies cada vez mais aceleradas e com graves impactos para as pessoas ao redor do mundo. “A esmagadora evidência da Avaliação Global do IPBES, de um vasto leque de diferentes áreas de conhecimento, apresenta um quadro sinistro”, alerta o Presidente do IPBES, Sir Robert Watson. “A saúde dos ecossistemas dos quais nós e todas as outras espécies dependem está se deteriorando mais rapidamente do que nunca. Estamos erodindo as próprias fundações de nossas economias, meios de subsistência, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida em todo o mundo”.

“O relatório também nos diz que não é tarde demais para fazer a diferença, mas apenas se começarmos agora em todos os níveis, do local ao global”, afirma Sir Watson. “Através da ‘mudança transformadora’, a natureza ainda pode ser conservada, restaurada e usada de forma sustentável. Isso também é fundamental para atender a maioria das outras metas globais”.

O documento igualmente aponta que cerca de um milhão de espécies animais e vegetais estão ameaçadas de extinção. Muitas já correm o risco de desaparecerem nas próximas décadas, uma taxa de extinção nunca vista antes pela humanidade, sendo resultado da industrialização e do estilo de vida adotado a partir do século XX: muito consumo e descarte de produtos ainda possíveis de uso (trataremos mais detidamente sobre este assunto em futuras colunas).

O quadro atual indica que a abundância média de espécies nativas, na maioria dos principais habitats terrestres, decaiu em pelo menos 20%, principalmente desde o início do século passado. O que se vem observando é que: mais de 40% das espécies de anfíbios, mais de um terço de todos os mamíferos marinhos e quase 33% dos corais estão ameaçados de extinção; sendo que o quadro é menos notório para espécies de insetos, mas evidências disponíveis apoiam uma estimativa de 10% de ameaça extintiva; sobre as extinções já concretizadas desde o século XVI, sabe-se que pelo menos 680 espécies de vertebrados já não existem na Terra.

A relevância política do referido Relatório é ampliada quando os estudiosos que empreenderam a avaliação classificaram, pela primeira vez, nessa escala e com base numa análise minuciosa dos dados disponíveis, os cinco “culpados” diretos da mudança na natureza com os maiores impactos globais relativos até agora. Esses cinco vilões são, em ordem decrescente:

(1) mudanças no uso da terra e do mar;

(2) exploração direta de organismos;

(3) mudança climática;

(4) poluição, e

(5) espécies exóticas invasoras.

Outras comprovações apontadas no citado Relatório devem ser destacadas, a saber:

  • 3 quartos do ambiente terrestre e cerca de 66% do ambiente marinho foram significativamente alterados pelas ações humanas, isso impacta diretamente na produção de oxigênio. Em média, essas tendências foram menos severas ou evitadas em áreas mantidas ou gerenciadas por povos indígenas e comunidades locais, uma vez que essas populações possuem uma consciência ambiental maior que as dos grandes centros, principalmente as ditas industrializadas;
  • as áreas urbanas mais do que dobraram desde 1992, o que significa mais ameaça ambiental, devido a falta de consciência da população desses centos e do estilo de vida implantado nesses locais;
  • a degradação da terra/solo reduziu a produtividade de 23% da superfície terrestre global, até 577 bilhões de dólares em safras globais anuais estão em risco de perda de polinizadores e 100-300 milhões de pessoas estão em perigo, uma vez que houve aumento de inundações e furacões devido à perda de habitats costeiros e proteção;
  • mais de 1/3 da superfície terrestre do mundo e quase 75% dos recursos de água doce são agora dedicados à produção agrícola ou pecuária, uso esse que termina desperdiçando muito desse recurso pela própria dinâmica dessa utilização;
  • o valor da produção agrícola aumentou cerca de 300% desde 1970, a colheita de madeira bruta subiu 45% e aproximadamente 60 bilhões de toneladas de recursos renováveis e não renováveis são extraídos globalmente a cada ano, tendo quase dobrado desde 1980;
  • em 2015, 33% dos estoques de peixes marinhos estavam sendo colhidos em níveis insustentáveis; 60% foram pescados de forma sustentável, com apenas 7% retirados em níveis inferiores aos que podem ser pescados de forma sustentável;
  • a poluição plástica aumentou 10 vezes desde 1980, demandando ações de conscientização de uso;
  • 300 a 400 milhões de toneladas de metais pesados, solventes, resíduos tóxicos e outros resíduos de instalações industriais são despejados anualmente nas águas do mundo e fertilizantes entram nos ecossistemas costeiros produzindo mais de 400 “zonas mortas”, totalizando em torno de 245.000 km2, o que resulta numa área combinada maior que a do Reino Unido;
  • desde 1980, as emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa dobraram, elevando a temperatura média global em pelo menos 0,7 graus Celsius. Isso conduziu a uma mudança climática que já afeta da natureza do ecossistema à genética e esses impactos devem aumentar nas próximas décadas, em alguns casos, superando o impacto da mudança do uso da terra/solo e do mar, bem como de outros fatores.

O que se observa é que,
quando se destrói um habitat/floresta,
várias espécies ficam sem lares.

Apesar do progresso para conservar a natureza e implementar políticas de preservação do ambiente, o mencionado Relatório igualmente levanta a possibilidade das metas globais para conservar e usar a natureza de forma sustentável como também alcançar a almejada sustentabilidade não serem alcançadas, levando-se em consideração o cenário hodierno apresentado. Tendências atuais negativas na biodiversidade e nos ecossistemas mitigarão o progresso de 80% das metas avaliadas nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), as quais estão relacionadas à pobreza (1), fome (2), saúde (3), água (6), cidades (11), clima (13), oceanos (14) e terra (15).

A perda de biodiversidade é, portanto, mostrada não apenas como uma questão ambiental, mas também como um problema de desenvolvimento econômico, de segurança, social e moral, temas importantíssimos para a sustentabilidade em todos os ângulos dessa questão.

O documento em questão ainda evidencia a importância de se adotar abordagens integradas de gestão e intersetoriais que enfoquem as compensações da produção de alimentos e energia, infraestrutura, manejo de água doce e costeira e conservação da biodiversidade, temáticas que tanto o primeiro como o segundo setor terão de colocar em suas agendas de forma emergencial.

Outro ponto também identificado como um elemento-chave de políticas futuras mais sustentáveis está a evolução dos sistemas financeiros e econômicos globais para edificar uma economia global sustentável, afastando-se do atual paradigma limitado e ameaçador de crescimento econômico.

Esse é o cenário ambiental apresentado por aquele Relatório, que foi elaborado por centenas de especialistas de todo o mundo, os quais dispuseram de seu tempo e conhecimento para ajudar a lidar com a perda de espécies, ecossistemas e diversidade genética, que resultam numa ameaça verdadeiramente global e geracional para o bem-estar humano. De acordo com a Secretária Executiva do IPBES, Dra. Anne Larigauderie, “O IPBES apresenta a ciência autorizada, o conhecimento e as opções políticas para os tomadores de decisão para sua consideração”, cabendo assim uma mudança de comportamento e tomada de ações emergenciais por parte de toda a humanidade, pois essa é uma das atingidas no cenário delineado.

Como este assunto é extenso e está em alta (devido às queimadas dos últimos dias presenciadas na floresta amazônica), continuaremos abordando a temática na próxima postagem. Até o próximo mês…


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Pós-doutora em Ciências da Comunicação (Nova de Lisboa); doutora e mestra em Letras (UFBA); bacharela em Relações Públicas (UNIFACS); professora adjunta (UNIFESSPA); pesquisadora e líder do Grupo de Pesquisa ComDes (CNPq); atuou como consultora de Comunicação e Transparência Empresarial.