A consequência das queimadas para os aquíferos

AQUÍFERO

Para entendermos as consequências das queimadas para os aquíferos, primeiro precisamos entender o é um aquífero. Etimologicamente, aquífero significa: aqui = água; fero = transfere; ou do grego, suporte de água. Um aquífero é uma formação ou grupo de formações geológicas permeáveis (solos e/ou rochas) no subsolo que armazena água subterrânea infiltrada (através da percolação) em seus poros e/ou fraturas e tem a capacidade de transmiti-la (por diferencial de pressão hidrostática). Geralmente, apresenta extensão de milhares de quilômetros quadrados com espessura variando de alguns metros até centenas de metros.

Quando pensamos em aquíferos, a imagem que nos vem à cabeça é de uma caverna com paredes rochosas com água até seu teto. É importante salientar que esse é apenas um tipo de aquífero, denominado aquífero cárstico, que ocorrem em cavernas vadosas devido a dissolução das rochas carbonáticas ali presentes, onde a água circula pelas aberturas ou cavidades.

Apenas para evidenciarmos resumidamente os tipos diferentes de aquíferos (quanto ao tipo de porosidade), segue:

– Aquífero intergranular (poroso)

É aquele no qual a água circula nos poros dos solos e grãos constituintes das rochas sedimentares.

– Aquífero cárstico

É aquele no qual a água circula pelos conjuntos contínuos e espessos de rochas carbonáticas, acarretando aberturas ou cavidades causadas pela dissolução das rochas, principalmente nos calcários.

– Aquífero fraturado (fissural)

Recebe essa denominação aqueles aquíferos em que a água circula pelas fraturas, fendas e falhas nas rochas cristalinas ou rochas metassedimentares (rochas sedimentares que passaram por metamorfismo).


Além da porosidade, os aquíferos exibem diversas características como porosidade efetiva, vazão específica e retenção específica. Elas acarretam diferentes valores de condutividade hidráulica, coeficiente de armazenamento, transmissividade, fluxo de água etc. Essas distinções classificam os aquíferos em diversos outros tipos, que entraremos em detalhe em outra publicação.

Agora vamos entender melhor o ciclo responsável pelo funcionamento de um aquífero com uma breve introdução. Resumidamente, os aquíferos são divididos em três zonas: a primeira, logo abaixo da superfície, é denominada zona não saturada, onde a água e o ar preenchem os espaços vazios existentes, ocorrendo assim presença de três fases distintas: sólido, líquido e vapor. Logo após, há a zona de transição, cujo teor de umidade decresce rapidamente com a profundidade. Por fim, a última zona do aquífero se refere a zona saturada, onde como o próprio nome diz, é a parte saturada do aquífero, com existência de apenas duas fases: sólido e líquido (vazios completamente preenchidos por água, ao redor dos grãos/fraturas da rocha).

Água subterrânea é toda água que ocorre abaixo da superfície da terra, originárias de águas da chuva, formando aquíferos e exercendo uma função básica na conservação da umidade do solo, do fluxo dos rios e preservação de poços artesianos, lagos, nascentes, etc. As águas subterrâneas vêm mostrando sua grande importância e fragilidade, principalmente, devido a sua extensão, ao seu tempo de reposição (recarga), a sua crescente utilização e ao risco de contaminação muitas vezes irremediável.

Para saber mais, visite a publicação:

https://www.mma.gov.br/estruturas/167/_publicacao/167_publicacao28012009044356.pdf


INFILTRAÇÃO E RECARGA

Para entendermos melhor a recarga dos aquíferos, é necessário descrever os processos que ocorrem durante e após a precipitação (chuva). Inicialmente, as primeiras partículas de água sofrem evaporação direta, devido ao calor do sol ou da superfície. Após, as partículas que não evaporaram são interceptadas pela copa da vegetação (de 3 a 20% da precipitação). Essa água, portanto, não atinge o solo, retornando a atmosfera por evapotranspiração. Com a continuação da chuva, ocorre, finalmente, a infiltração da água no solo/rocha. Após, há acúmulo em poças e depressões na superfície, que corresponde as águas retidas nas irregularidades do terreno, quando o solo/rocha perde sua capacidade de infiltração (diminui exponencialmente com o tempo – solo fica saturado).

A percolação através do solo varia para os diferentes tipos de solos existentes, e também com os diferentes valores de umidade em um mesmo tipo de solo. Infiltração, portanto, é o nome dado ao processo pelo qual a água atravessa a superfície do solo. É um processo de grande importância, pois afeta diretamente o escoamento superficial, o qual veremos a seguir, que é o componente do ciclo hidrólogico responsável pelos processos de erosão e inundações.

Após a capacidade de infiltração do solo/rocha chegar ao seu limite, e da água preencher as depressões, começa a ocorrer escoamentos pela superfície do terreno, devido a ação da gravidade, em direção ao exutório (ponto de menor altitude de uma bacia hidrográfica). Esse processo é denominado escoamento superficial (overland flow) e ocorre durante e logo após o evento de precipitação. O escoamento superficial é difuso quando há formação de uma lâmina d’água no terreno, e deflúvio quando esse escoamento alcança os leitos dos rios.

Além do escoamento na superfície do terreno, parte da água infiltrada que não alcança a zona saturada do aquífero, percola também em direção ao exutório. Esse escoamento interno (interflow) é controlado por heterogeneidades na geologia desse subsolo, e dura meses após o evento de precipitação.

Há um último tipo de escoamento, denominado escoamento de base (base flow) que corresponde a água que percola também em direção ao exutório, porém, a partir do topo da zona saturada do aquífero. Esse tipo de escoamento demora anos para ser finalizado.

A magnitude dos escoamentos depende da intensidade, duração e distribuição da precipitação, da permeabilidade e declividade do solo ali existente, da heterogeneidade geológica da sub superfície, do tipo de vegetação, da área da bacia e também da profundidade do nível da água subterrânea. Portanto, para ocorrer a infiltração no solo/rocha, o tipo de solo e/ou estruturação da rocha, o clima, a geomorfologia e a geologia geral do subsolo serão decisivos para determinarmos a área de recarga de um determinado aquífero, considerando suas diferentes características existentes ocasionadas por esses fatores.

Dessa forma, a água que infiltrou no solo/rocha pode ter três percursos possíveis: fluxo não saturado, que são os vazios do solo parcialmente preenchidos por água e ar; interfluxo e, finalmente, a recarga. Ou seja: infiltração não é a mesma coisa que recarga. A infiltração sempre será maior que a recarga (recarga = infiltração – evapotranspiração – escoamento interno). Falaremos de recarga de aquíferos mais detalhadamente em outra publicação.

Para saber mais sofre o assunto, visite: http://www.ufrrj.br/institutos/it/deng/leonardo/downloads/APOSTILA/HIDRO-Cap5-INF.pdf


A PRÁTICA DA QUEIMADA

A prática da queimada não traz nenhum benefício ao produtor e acarreta diversos impactos sociais, econômicos e ambientais. Porém, infelizmente, ela ainda é comum entre agricultores, principalmente aqueles com menos recursos financeiros, como meio de limpar o solo (desmatar) para um determinado plantio.

Essa prática influi negativamente nas mudanças globais, e é um dos principais atores responsáveis pela intensificação do efeito estufa. Em 2010, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) estimou que as queimadas e o desmatamento foram responsáveis por 75% das emissões de CO² do Brasil para a atmosfera.

As queimadas causam danos ao solo e aos demais recursos naturais na medida em que provoca alterações nas características físicas, químicas e biológicas do solo e da atmosfera, contribuindo consequentemente e significativamente para a degradação e redução da capacidade produtiva da terra, para a deterioração da qualidade do ar, para a redução da biodiversidade e da plena saúde humana. Além das queimadas eliminarem nutrientes essenciais às plantas (como nitrogênio, potássio e o fósforo), a prática reduz a umidade do solo e acarreta a sua compactação, o que resulta no desencadeamento de processos erosivos e outras formas de degradação da área. Com menos vegetação, ocorre menos evapotranspiração para a atmosfera, gerando uma baixa umidade, acarretando numa diminuição de chuvas.

Uma das mais graves consequências desse desmatamento é a destruição de nascentes e da área de recarga dos aquíferos. A água não consegue infiltrar no solo (para uma parte abastecer os aquíferos) devido à falta de vegetação para reter umidade e a compactação causada (diminui os poros e a passagem de água), acarretando num escoamento superficial intensificado. Com dificuldade de recarga natural pela precipitação, o nível freático começa a reduzir, ocasionando também, diminuição da vazão do rio que é alimentado por esse aquífero.

O entendimento da interação da água subterrânea e superficial é essencial ao estudo em recursos hídricos, tendo em vista o fato que ela representa um elo do ciclo hidrológico. A quantificação dessa interação pode ser realizada de diversas maneiras, como por exemplo, com a utilização de infiltrômetros, mínipiezômetros, traçadores, lisímetros de fundo de rio, cálculos de diferença entre vazões em um trecho do rio e, também, através do balanço hídrico. A taxa de troca hídrica entre rio e aqüífero varia no espaço e no tempo. (GELDNER, 1980 e KALERIS, 1986; apud Kaleris, 1998).

Para saber mais sobre a interação das águas subterrâneas e superficiais, visite o artigo: https://aguassubterraneas.abas.org/asubterraneas/article/viewFile/11728/8261

Como consequência também da compactação do solo, o aumento do escoamento superficial transporta sedimentos que são erodidos pela força e velocidade dessa lâmina d’água formada pela chuva, retirando assim nutrientes. Devido efeito da gravidade, esses sedimentos assoreiam os rios, diminuindo também a vazão dos mesmos.

É de suma importância que a população e o governo unem forças para diminuir ao máximo essa prática, já que coloca em risco a sobrevivência do planeta como entendemos hoje e também, claro, nossa própria existência como civilização.


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Pós graduanda em Legislação, Perícia e Auditoria Ambiental pela Estácio de Sá e graduada em Geologia pela Universidade de Brasília.